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Casas populares sem muros: o sonho da moradia que já começa vulnerável

Em teoria, toda vez que iniciamos a construção de uma casa existe uma preocupação básica: proteger o que está sendo construído. Materiais de obra têm valor, equipamentos instalados também, e aquilo que foi conquistado com esforço precisa ser preservado. Por isso, em obras particulares é comum ver tapumes, cercas provisórias e até vigilância. A lógica é simples: proteger o patrimônio.

Mas quando falamos de moradias populares entregues por programas habitacionais, essa lógica parece desaparecer.

Nesta semana, às vésperas da entrega de cerca de 150 casas populares em Lagoa da Prata, já começaram a surgir os primeiros sinais de um problema previsível: furtos. Em uma das casas, foi levada a bacia de um tanque que fica na área externa da residência. Um detalhe aparentemente pequeno, mas que revela algo maior — as casas são entregues totalmente abertas, sem muros ou qualquer tipo de proteção mínima.

Não é preciso muito esforço para entender o que acontece em seguida. Casas novas, equipamentos recém-instalados e nenhuma barreira física acabam se tornando alvo fácil para oportunistas. Infelizmente, vivemos em uma sociedade onde sempre haverá quem se aproveite da vulnerabilidade alheia.

É nesse ponto que surge uma reflexão incômoda.

A entrega das casas sem muros costuma gerar uma imagem muito bonita nas inaugurações. Fileiras de residências padronizadas, fachadas abertas, ruas limpas e um cenário visualmente organizado para fotos e vídeos. É a estética perfeita para registros oficiais e divulgação pública.

Mas essa imagem dura pouco.

A realidade começa quando as famílias recebem as chaves. A maioria dessas pessoas chega ali depois de uma longa jornada de dificuldades financeiras. Muitas mal conseguem mobiliar a casa no início, quanto mais construir um muro imediatamente.

Assim, cada morador faz o que pode. Um levanta um muro de alvenaria. Outro improvisa com tela. Alguns usam madeira. Outros demoram anos para conseguir qualquer tipo de proteção. Aos poucos, o bairro ganha muros diferentes, portões variados e adaptações feitas dentro da realidade de cada família.

E é justamente nesse momento que aquela estética inicial desaparece.

Abre-se então um parêntese inevitável para reflexão:

A romantização da divulgação, ao mostrar as casas exatamente como foram entregues, certamente será explorada politicamente. Mas essa estética também pode se tornar uma armadilha para gente simples, que terá dificuldade em murar sua propriedade. Cada um, dentro da sua possibilidade, fará o muro que conseguir.

É preciso fotografar agora, enquanto tudo parece uniforme. Porque depois, quando surgirem os muros improvisados e as adaptações naturais da vida real, os agentes públicos costumam perder o interesse em filmar e registrar.

No fim das contas, surge uma pergunta legítima: será que programas habitacionais não deveriam prever algum tipo de proteção mínima para essas casas desde o início?

Um muro simples, uma cerca padrão ou qualquer solução básica poderia reduzir furtos e oferecer mais segurança para quem está começando uma nova etapa da vida.

A casa própria representa dignidade.
Mas dignidade também passa pela sensação de segurança.

E talvez seja hora de incluir essa discussão no debate sobre moradia popular.


Robson Moraes

Robson Moraes Almeida, Farmacêutico, Bioquimico, Retratista e Editor do Lagoa da Prata Ponto Com

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