Relações Humanas no Setor Público

A REFORMA NECESSÁRIA PARA UMA NOVA GERAÇÃO DE SERVIDORES

                Em 1929, a sociedade se viu marcada por uma “Grande Depressão”, criada pela queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque. A chamada “Grande Crise” alarmou o setor industrial em todos os seguimentos. Ninguém poderia imaginar que e pleno desenvolvimento da era industrial uma crise poderia se despontar, trazendo tamanha instabilidade para o mercado internacional. Estudiosos debruçavam-se em cima de suas pesquisas, para encontrar respostas para o que poderia ter causado tamanho estrago e tão gigantesca Crise.

                Neste contexto, ganha forma a Escola de Relações Humanas, ou Teoria das Relações Humanas. Um nome de destaque neste cenário foi o senhor George Elton Mayo (1880 -1949), psicólogo australiano, professor, sociólogo e pesquisador. Mayo desenvolveu uma pesquisa que ficou conhecida como Experiência de Hawthorne. Que tinha como objetivo inicial estudar os níveis de fadiga, acidentes e a grande rotatividade de pessoal, no chão de fábrica, e também os efeitos  das condições físicas de trabalho sobre a produtividade.

                A pesquisa de Mayo trouxe para a sociedade moderna uma luz no fim do túnel, em um momento de extrema escuridão nos processos administrativos das empresas. Afinal, ninguém sabia de fato o que levou as empresas a entrarem em crise. Mayo descobre então que, a relação do homem com seu trabalho está intimamente ligada às suas emoções, e que os níveis de produção são resultantes da integração social, da capacidade social do trabalhador em estabelecer seu nível de competência e inteligência (Mayo, 1927). Assim, começa a grande jornada das Teorias das Relações Humanas, contradizendo várias outras Teorias da Administração e somando-se a outras de igual relevância. A partir daí, percebeu-se que o ser humano, para estar no auge de sua capacidade de produção, precisa também alcançar níveis de satisfação pessoal. Os aspectos emocionais devem ser levados em consideração. O ser humano deixa de ser uma máquina de produção meramente mecânica, para ser o protagonista na cadeia produtiva. Sua qualidade de vida passa a ser colocada como premissa no ambiente fabril.

                Contudo, na contramão da evolução das Relações Humanas no ambiente de trabalho, está o setor público. Atualmente sobrecarregado por ilimitados serviços burocráticos, meio a um amontoado de papel e pouca tecnologia. O serviço público parece não ter evoluído tanto quanto precisava, ao longo do tempo. O setor público gera ao servidor um alto nível de estresse e desmotivação.  A consequência disto é o mau atendimento ao cidadão, uma prestação de serviço ineficiente, que se torna uma grande bola de neve. Gerando mais burocracia, ineficiência e descontentamento de ambos os lados. Tanto de quem é usuário do serviço público, quanto do próprio servidor, sobrecarregado e desmotivado.

                Um dos principais vilões deste péssimo ambiente de trabalho, no setor público, vem das falhas grotescas na elaboração do plano de Cargos e carreiras destas instituições. Seus concursos, várias vezes recrutam o profissional para uma área, sem sequer fazer um teste vocacional para aquele setor. O candidato ao cargo público, presta concurso para uma determinada área, sem sequer conhecer as demandas do cargo que o espera. Pois nunca foi feito uma descrição de cargo, que mostrasse realmente qual é função de cada um no funcionalismo público. O que se vê são atribuições superficiais, que não condizem com a realidade da prática diária.

                Logo, quando o servidor passa em um concurso e começa a exercer aquela função, percebe que ali não é sua área. Mas infelizmente está engessado naquele cargo, pelo resto de sua vida; porque no setor público não existe a menor possibilidade de uma ascensão de carreira, que possibilite ao colaborador fazer planos para o seu futuro profissional, ou ir pouco mais além daquilo que ele está determinado fazer.  Assim, visando somente à estabilidade que o cargo lhe oferece, o servidor público se acomoda, perde seu entusiasmo de crescer e mantém seu ritmo de trabalho, mesmo que rotineiro e exaustivamente prejudicial ao seu desenvolvimento humano e profissional.

                Fadado a uma rotina estressante de serviço, na estabilidade de um cargo público, o servidor não se vê motivado, pois sabe que, mesmo estudando, se capacitando e aprimorando seus conhecimentos, pouco será a valia, afinal o atual modelo de gestão de pessoas deste setor, jamais vai permitir sua acessão de carreira. Salvo, se por uma sorte política, ele consiga um cargo comissionado, mas que também tem data de validade e não garante uma estabilidade financeira, ou mesmo sua satisfação pessoal em longo prazo.

                Logo, percebe-se que as diversas reclamações dos usuários do serviço público, estão diretamente vinculadas, ao próprio ambiente de trabalho, ao excesso de burocracia e a desmotivação do servidor. O que nos faz refletir sobre a necessidade urgente de uma reforma administrativa, que volte também seu olhar para a valorização do capital humano dentro da área pública. Com planos de cargos e salários justos, ascensão de carreira, planos de treinamento e capacitação constantes e benefícios que possam trazer certo nível de satisfação ao servidor público; ao ponto dele sentir-se orgulhoso de sua posição e da função de servir sua sociedade.

                Mayo dizia que as pessoas são motivadas principalmente pela necessidade de reconhecimento, de aprovação social e de participação nas atividades dos grupos sociais (Conceito de Homem Social). Logo, é preciso compreender que o servidor público, também está em uma linha de produção, no entanto seu produto é a prestação de serviço ao cidadão. E para tanto, ele também quer ser reconhecido pelo seu trabalho, pelo seu esforço e por sua capacidade de prestar um serviço eficiente.

            Deve-se lembrar que ninguém motiva outra pessoa, pois a motivação é algo intrínseco a cada pessoa; portanto, o máximo que as organizações podem e devem fazer é criar e consolidar instrumentos que facilitem o processo de desenvolvimento e de explicitação do nível de motivação alcançado pelos executivos e funcionários da organização. (OLIVEIRA, 2004, p146)

                Concluindo, é preciso olhar para o serviço público, com uma visão mais humanística, voltada e concentrada para a principal ferramenta de produção deste setor, que são as pessoas. Criar ferramentas e mecanismos que coloque o ser humano servidor público, como centro das atenções da relação humana no ambiente de trabalho. As Teorias das Relações Humanas mudaram e continuam mudando a todo instante, a relação entre colaborador e patrão no setor privado. E o que se vê são níveis de produção cada vez mais altos e com qualidade alcançada. Trazer para o setor público este olhar mais humano, observando as emoções, os sonhos e as metas do servidor público, podem gerar resultados jamais vistos antes, na qualidade do serviço prestado ao cidadão. Não precisamos esperar uma grande crise acontecer no setor público, para começar a pensar nas mudanças necessárias para se prestar um serviço de qualidade a população do novo século. A qualidade de vida do servidor, um ambiente de trabalho humanizado pode fazer toda a diferença, no trato ao cidadão, desta nova era moderna.  Hora de começar a pensar nisto!

“Um trabalhador feliz é um trabalhador produtivo” (Elton Mayo)


Escrito por: Wilian de Moura – Graduado em Gestão de Recursos Humanos; Pós graduado em Ciências Policiais Segurança e Ordem Pública; Pós Graduado em Gestão de Segurança Pública e Policiamento; com especialização em Gestão e Comando de Guardas Municipais pelo CESDH – Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos de São Paulo. Especialização em Educação Policial.

Robson Moraes

Robson Moraes Almeida, Farmacêutico, Bioquimico, Retratista e Editor do Lagoa da Prata Ponto Com

Escreva um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Copias desativadas.