Rua das Viúvas

Reportagem do Terra de Minas TV Globo 30/10/2004

Rua Professor Jacinto Ribeiro – Lagoa da Prata

Conheça o mistério desta rua da cidade mineira.

Uma boa vizinhança torna a vida mais agradável. Ter alguém para conversar, pedir socorro nas horas de aperto, fazer festa junto. É assim que vive um grupo de mulheres de Lagoa da prata, na região centro-oeste de Minas. Só que há mais uma curiosidade nesta história.
Lagoa da Prata está a pouco mais de 200 quilômetros de Belo Horizonte. Nesta cidade onde todos os caminhos se parecem, uma rua de apenas três quarteirões guarda uma história diferente: a história da convivência de 12 mulheres. De vizinhas, elas passaram a amigas, grandes amigas. Hoje dividem os momentos de distração, os lanches da tarde, os problemas e as alegrias.

– A gente reúne muito pra rezar. À tarde, a gente senta no banco na porta para contar casos, o que aconteceu com uma e com outra, conta Alexandrina Perillo, aposentada.

– Tem dia que eu telefono: Alfredina, vamos jogar hoje? Eu tô assim tão triste. Ela fala assim: vamos ver se a Terezinha quer ir, ri Maria Helena Bernardes, aposentada.

– Gosto de todas, muito, não é pouco não. De vez em quando nós brigamos, mas é briguinha de amor, explica a relação Terezinha Lobato, aposentada.

– Nós nunca brigamos. Só somos muito francas uma com a outra. Precisou, vem, vem falar, que eu sou boa nisso, sabe?, diz Maria Cristina Gontijo, aposentada.

Para as mais idosas que vivem sozinhas, ter vizinhas que também são amigas é um privilégio. Uma está sempre pronta para ajudar as outras.

– Dá a mão a todas. ‘Tá’ doente, leva um remedinho, ‘tá’ precisando duma comidinha, leva, convida, é isso. Eu não sinto solidão, conta Alfredina Magalhães, aposentada.Além da rua onde moram, as amigas têm outra coisa em comum: todas são viúvas. Doze viúvas numa rua de apenas três quarteirões. Como é que se explica tamanha concentração?

– Talvez seja para mostrar que a mulher não é tão frágil, o sexo frágil, como o povo fala. Talvez nós é que sejamos o sexo forte, explica Maria Alice Perillo, aposentada.

– Acho que nós somos (fortes). Eu sou. Já fui operada ‘500’ vezes e não morri. Sou um ‘coquinho’, brinca Dona Terezinha.Hora de saber o que pensa o único viúvo da Rua Professor Jacinto Ribeiro, que chega para visitar as vizinhas.

– Cheguei à conclusão que são ótimas cozinheiras, fazem comida muito gostosa e os maridos entraram na gordura e morreram tudo de colesterol (alto), e elas estão numa boa, graceja Osires Campos, advogado.
Ele garante que não é ruim ser o único viúvo entre tantas viúvas.

– Olha, eu me sinto à vontade, viu? São todas amigas, pessoas que me ajudam. Quando eu preciso de alguma coisa que depende de mulher, elas me dão assessoria, digamos assim, explica Osires.
Ser um bom partido nesta rua de tantas mulheres será que não assusta seu Osires?

-Não, elas são todas minhas amigas, e os maridos eram muito amigos meus. Maior respeito. Aqui não rola nada disso não. Daqui eu não saio de aliança, com certeza que não, diz o advogado.

As viúvas assinam embaixo. Preferem continuar viúvas. E desfrutar por muito tempo ainda a convivência nesta rua tranqüila de Lagoa da Prata.


Esta reportagem também já mereceu destaque em programas como da Maria Braga da TV Globo.
O próprio Programa Terra de Minas já reprisou esta matéria várias vezes.

Robson Moraes

Robson Moraes Almeida, Farmacêutico, Bioquimico, Retratista e Editor do Lagoa da Prata Ponto Com

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